recordando o Massacre de Beslan



Massacre de Beslan

Terroristas chechenos provocam a morte de dezenas de crianças em escola e servem de pretexto para o retrocesso autoritário do regime russo

01/12/2004 00h00
A era do terrorismo contra grandes grupos de civis ganhou mais um capítulo macabro em 1º de setembro de 2004. Assim como em 11 de setembro de 2001, um atentado em Beslan, cidade de 30 mil habitantes na Ossétia do Norte, na Federação Russa, matou centenas de pessoas. Mas desta vez o alvo dos terroristas, chechenos e inguches, foi uma escola. O saldo foi a morte de 339 reféns e policiais, e mais 31 terroristas.

Entre os mortos, 156 crianças. Entre os feridos, a democracia russa. A comoção em torno de Beslan se mostrou uma boa oportunidade para o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, endurecer ainda mais sua posição em relação aos rebeldes e envergar um pouco mais a ainda tenra vida democrática russa.

Putin se nega a negociar uma solução pacífica para a questão do nacionalismo da República Autônoma da Chechênia. As tropas de Moscou permanecem ocupando a capital do país, Grozny, invadida em 2000. Tamanho interesse se explica pelas reservas de petróleo do Mar Cáspio, cujos oleodutos cruzam grande parte dos 13 mil quilômetros quadrados do território checheno.
Os terroristas, que defendem a independência da Chechênia e a retirada das tropas russas, já haviam cometido inúmeros atentados contra alvos russos durante o ano. Pouco antes, em 24 de agosto, dois aviões que partiram de Moscou foram derrubados por suicidas chechenas, matando no total 90 pessoas.
O presidente russo também aproveitou a carnificina na escola para obter mais poderes. Em 29 de outubro, a Duma, Câmara Baixa russa, aprovou um projeto de lei que outorga ao chefe de Estado o poder de designar os dirigentes regionais. O projeto acaba com a eleição direta para governadores, substituindo-a por uma votação na assembléia local. Os candidatos devem ser propostos pelo Kremlin. Se forem rejeitados, o presidente pode dissolver a assembléia e convocar novas eleições. Faltou pouco para configurar um golpe branco.
A tragédia também serviu para aumentar ainda mais a tensão na região do Cáucaso. Inguches e chechenos, majoritariamente muçulmanos, agora são alvo da ira de ossétios do norte, cristãos ortodoxos. Já os ossétios do sul, cujo território está anexado à independente República da Geórgia, luta para juntar-se à porção norte. Os georgianos, por outro lado, ameaçam entrar em guerra caso as duas Ossétias se unam. Um barril de pólvora, potencializado pelo episódio terrorista.
A ação
A invasão da escola de Beslan se deu numa segunda-feira, exatamente o dia em que tinha início o ano letivo russo. Pais e filhos, escolares de 7 a 17 anos, estavam reunidos no ginásio para a celebração do primeiro dia de aula. Três dezenas de seqüestradores, munidos de armas e bombas amarradas ao corpo, invadiram o local. Nessa ação, mataram pelo menos 20 pessoas e fizeram mais de 1200 reféns.
O exército russo cercou o prédio. O ex-presidente de outra república vizinha, a Inguchétia, Ruslan Auchev, foi chamado para negociar com os seqüestradores. Eles exigiam a retirada das tropas russas que estão no país desde 2000 e a libertação de colegas presos. No dia seguinte à invasão, a água e luz do local foram cortados. Os terroristas, inguches e chechenos, se negaram a dar água e comida aos cativos. Por isso, alguns reféns chegaram a tomar a própria urina.
No terceiro dia, um tiroteio irrompeu e explosões foram ouvidas dentro da escola. O teto do ginásio, que estava coberto de bombas plantadas pelos terroristas, desabou, matando dezenas de pessoas. O exército russo invadiu a escola e somente 12 horas depois a situação estava totalmente controlada. Apenas um seqüestrador, um inguche, foi preso. Os demais morreram na ação.
Segundo Auchev, a tragédia começou quando familiares dos reféns atiraram no ginásio, provocando uma reação imediata dos terroristas. “Tudo deu errado por causa dos disparos de um bando de civis estúpidos”, acusou o negociador. “O problema é que havia uma terceira força, composta por milícias populares, que decidiu agir por conta própria.”
O final trágico e confuso foi semelhante ao desfecho de outra ação de radicais chechenos, no Teatro Dubrovka, em Moscou, há dois anos. Naquela ocasião, após a morte de dois reféns, tropas especiais russas invadiram o teatro. Com a ajuda de um gás narcotizante, todos os 50 seqüestradores foram mortos. Mas o gás tóxico também matou 127 dos quase 800 reféns.
Presidente assassinado
Os rebeldes chechenos também atacam em seu próprio território. No dia 9 de maio, um terrorista suicida se explodiu ao lado do presidente recém-eleito, Akhmad Kadyrov. Um velho aliado de Moscou, Kadyrov havia sido eleito em dezembro de 2003. O pleito, patrocinado pelo presidente Putin, foi duramente criticado por políticos oposicionistas russos e pelo Conselho da Europa, pertencente à Comunidade Econômica Européia. Andreas Gross, parlamentar do conselho, afirmou que “não considerava como verdadeiras as eleições”.
De fato, sinais suspeitos não faltaram. A maioria dos candidatos com chances de derrotar Kadyrov foi alijada da eleição. O governo russo ofereceu cargos a alguns, que assim abandonaram a candidatura. Outros simplesmente foram retirados da lista de candidatos. A eleição de Kadyrov também teve como objetivo tirar da cena política Aslan Masjadov, presidente eleito em 1997. Masjadov foi derrubado pela invasão russa e hoje comanda a resistência. Para ele, a ocupação custa a vida de milhares de chechenos.
Para completar, organizações internacionais de direitos humanos acusam as tropas russas de promover massacres, estupros e tortura contra a população da república rebelde. E anos de guerra destruíram a economia chechena, provocando a fuga de mais de um terço da população para repúblicas vizinhas, entre elas a Ossétia do Norte.

Chechênia e os russos

Uma longa história de conflitos
A interferência do poderoso vizinho não é novidade na Chechênia. Há 200 anos, tropas czaristas invadiram a região inaugurando uma era de conflitos entre os dois povos. Após a Revolução Russa de 1917, os chechenos acreditaram que conseguiriam sua independência, o que não ocorreu. Somente com o colapso da União Soviética, da qual fazia parte, em 1991, que a república caucasiana se separaria de seus vizinhos. A liberdade, contudo, não durou muito. Em 1994, o exército russo invadiu o território do vizinho e iniciou uma guerra que custou a vida de mais de 100 mil pessoas e a fuga de grande parte da população. Dois anos depois, a Rússia se retirou do país, derrotada. Ambos os lados assinaram um acordo de paz que mantinha em suspenso o status da Chechênia.O conflito voltou em 1999, quando rebeldes chechenos tomaram o vizinho Daguestão, também pertencente à Federação Russa. Ao lado de militantes locais, eles tentam fundar uma república islâmica, religião da maioria de ambas as populações. O fato se mostrou um novo argumento para mais uma invasão russa. Novamente o poderoso exército de Putin levou seus tanques e aviões para a pequena república autônoma, ocupando 80% de seu território. Ao mesmo tempo em que cresciam as denúncias de massacres contra civis pelas tropas invasoras, os atentados terroristas chechenos a alvos russos, como quartéis e prédios de civis, também aumentaram. Atualmente a capital, Grozny, tem menos da metade da população que tinha há pouco mais de duas décadas. A situação se assemelha à vivida após o final da Segunda Guerra Mundial. O ditador soviético Josef Stálin deportou parte da população chechena para a gélida e distante Sibéria, sob o pretexto de que eles eram colaboradores dos nazistas. O chechenos só puderam voltar após a morte de Stálin. Qualquer semelhança com as desculpas de Putin para usar mais violência contra os nacionalistas não é mera coincidência.

Putin, o Czar pós-comunista

Presidente linha-dura abusade cercos desastrados
Há cinco anos no poder, Vladimir Putin se firma cada vez mais como o grande czar moderno da Rússia. Em agosto de 1999, ele assumiu o posto de primeiro-ministro da Federação Russa e uma de suas primeiras ações foi ordenar a invasão da Chechênia. No final do mesmo ano, Putin, um ex-funcionário do serviço secreto russo, a antiga KGB, assume interinamente a Presidência, vaga após a renúncia de Boris Ieltsin. O endurecimento contra a república rebelde e a melhora da economia do país – que havia sofrido um sério revés no ano anterior -– ajudaram a eleger Putin nas eleições presidenciais de março de 2000, com 54% dos votos. A atuação do presidente nas duas grandes ações dos chechenos, no Teatro Dubrovna e em Beslan, tem sido criticada. Putin se recusa a negociar com terroristas, o que até parece defensável. Mas abusa de cercos desastrados, que acabam em centenas de mortes, e inibem a retomada do diálogo. Quando houve oferecimento de intermediação externa, o presidente recusou, dizendo que a questão é um problema doméstico. E, como seu colega norte-americano George W. Bush, alega que o combate ao terrorismo é prioritário.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fatos Históricos do dia 20 de maio

Cultura Afro - brasileira se manifesta na música, religião e culinária

Fatos Históricos do dia 30 de novembro