Carta do professor Antonio Carlos Mazzeo à Folha de São Paulo
A Carta que enviei à Folha de São Paulo, criticando seu Editorial de 01/01/2017
Prezados senhores,
Logo no primeiro dia de janeiro, ao ler o editorial desta Folha já estranho o tom. Em primeiro lugar, pelas meias verdades ali contidas ou, para melhor clarear as coisas – já que a meia verdade não é a verdade inteira - , as inverdades ali presentes. Comparar o processo de Impeachment de Collor ao processo manipulado e golpista perpetrado contra a presidente Dilma é defaçatez escancarada. Ficou mais que evidente, a ausência de provas concretas (aqui, concreto como resultado de múltiplas determinações da realidade) de que a presidente tenha cometido algum crime contra as leis e a Constituição do país, além da indigência politica e ética vivida pelo parlamento nacional, naquele momento abjeto da história nacional.
Em segundo lugar, deixar de constatar a parcialidade da operação judicial comanda pelo juíz Moro (sempre bom lembrar, de primeira instância) no levantamento de provas (muitas delas mais que discutíveis) elegendo apenas um segmento da política nacional, para vazar e plantar “provas” selecionadas, além das constantes violações das leis do país e do direito dos acusados - sem contar com as pantomimas subjetivistas dos Dallagnol da vida, e suas “convicções” sem evidências – é, para dizermos o mínimo, imperdoável. Mencionamos, ainda, o horror de uma política de destruição acelerada das conquistas da educação pública, além do furioso ataque às conquistas científicas e às Universidades públicas.
Por último, e não menos importante, a insensatez de considerar necessária uma política econômica, que congela os investimentos no país por 20 anos. Eu gostaria de saber se o editorialista escalado estava dormindo quando foram realizadas enxurradas de críticas de especialistas nacionais e internacionais sobre essa proposta esdrúxula e fundamentalmente antinacional.
Parar os investimentos públicos, privatizar as riquezas e os monopólios estatais do país – inclusive a loucura criminosa da privatização do Aquífero Guarani e do fatiamento progressivo da Petrobrás – , destruir a Previdência e mutilar a CLT, não me parecem soluções sérias para o Brasil, pois apenas indicam que volta a tomar as rédeas do poder a tradicional autocracia burguesa, antidemocrática a antipopular, que continua intocada e que retorna à cena política, através de sua prática histórica, o golpe de Estado, para realizar o que Caio Prado Jr. muito bem explicou, a operação de reinserir o Brasil no quado da economia internacional, na perspectiva de sua complementariedade e subalternização, fundamentos do que definiu como o sentido da colonização ou, se quisermos, a requalificação do país como economia neocolonial.
Um governo conspurcado por denúncias de corrupção e de propinas, inclusive que atingem o senhor Michel Temer, que ocupa a presidência da república, via o golpe parlamentar (que o editorial desta Folha considera “saída necessária”) não tem legitimidade para implentar tais políticas desastrosas sem consultar o país. Basta que se vejam as pesquisas de rejeição desse senhor e de seu governo para que, em sã consciência, não deixemos de considerar a possibilidade de por um paradeiro à essas medidas de destruição do país. Apenas para ilustração, o governo de Matteo Renzi, na Itália, por pressão da força das instituições democráticas daquele país, foi obrigado a por em plebicito possíveis alterações de uma Constituição fortemente social que emerge no final da IIª Guerra Mundial. A proposta do governo foi derrotada pela grande maioria dos votos e Renzi acabou pedindo demissão do cargo de presidente do Conselho de Ministros. Assim deve ser feito em uma democracia legítima.
De modo que podemos concluir que já está mais do que na hora de se tratar das coisas desse país com seriedade, e este editorial em nada contribui para uma análise profunda e necessária, sem as demagogias de uma sociademocracia-tardia, de via-colonial e sem a sanha agressiva e antidemocrática de uma burguesia historicamente autocrática, antipopular e antinacional.
Sem mais,
Antonio Carlos Mazzeo
professor universitário

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