Nota de Repúdio ao Crime Bárbaro ocorrido em Catanduva, SP



NOTA DE REPÚDIO AO CRIME BÁRBARO OCORRIDO EM CATANDUVA, SP.
O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de Catanduva vem, através desta nota pública, repudiar toda e qualquer forma de violência contra a mulher. Estamos inconformadas(os) com o ato bárbaro cometido nesta Cidade, no último dia nove de outubro: uma adolescente foi estuprada e brutalmente assassinada.
O que aconteceu com essa adolescente (o estupro), não foi apenas um caso local. Infelizmente, acontece com milhares de mulheres brasileiras, o tempo todo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, somente no ano de 2014, a cada 11 minutos uma mulher foi estuprada no país. Muitas delas acabam tendo o mesmo destino dessa garota: são assassinadas pelos seus agressores. De qualquer modo, o estupro é uma forma de violência brutal capaz de deixar marcas físicas e emocionais profundas na pessoa que o sofre.
É muito importante sabermos que todos estes casos de estupro que o Brasil apresenta são alimentados pelo que se chama de Cultura do Estupro. A Cultura do Estupro é uma forma de pensar que está presente na maioria de nós, brasileiros, mesmo que não percebamos. Esta forma de pensar costuma tratar o corpo da mulher como um objeto público, ou seja, como algo que pode ser tocado e “usado” por qualquer pessoa, independente da vontade da mulher. Esta forma de pensar está profundamente errada, além de ser extremamente perigosa e violenta. O corpo da mulher pertence somente a ela e é ela quem decide quem e quando tocá-lo. Em nenhuma situação, o corpo feminino pode ser visto como objeto de uso público, mesmo que as roupas sejam curtas, mesmo que a moça esteja em uma festa, e, pior ainda, se estiver sob efeito de bebidas alcoólicas.
Ao longo desses dias, desde que o crime aconteceu, muitas pessoas têm se perguntado de quem seria a culpa pelo ocorrido: há quem diga que a culpa foi da garota; há quem diga que a culpa pode ter sido da mãe da garota. A culpa também caiu sobre as mães dos agressores da menina, sobre a festa promovida pelo grupo de jovens etc. Quando culpabilizamos qualquer coisa que não seja A PESSOA QUE COMETEU O ESTUPRO, estamos alimentando a Cultura do Estupro. O único culpado pelo crime é quem o cometeu. Nunca a culpa é da vítima - independente do seu estado (se estava bêbada ou não, se usava roupas curtas ou não) – ou dos seus familiares ou dos familiares de seus agressores.
Ao falarmos sobre aqueles que cometeram o crime, é importante sabermos que 1) não são pessoas doentes; 2) não são pessoas descontroladas; 3) não agem por instinto. O homem que cometeu estupro é perfeitamente capaz de não cometê-lo. Porém, só o comete porque pensa conforme a Cultura do Estupro, isto é, pensa que o corpo da mulher não pertence a ela, mas pertence a qualquer um que queira tocá-lo e que possa, portanto, fazer o que quiser com ele. Toda ideia, todo comentário e todo comportamento que vê o corpo da mulher como objeto público e não como propriedade única e exclusivamente dela, está contribuindo para a banalização desse ato criminoso, e, consequentemente, para que os estupros continuem acontecendo.
Nós do Coletivo Ana Montenegro acreditamos que os agressores devem ser punidos apenas na forma da Lei (mesmo que saibamos de todas as falhas de nosso sistema jurídico). Estamos certas(os) de que o caminho para lutar contra estes crimes não é através da geração de mais violência, mas sim no COMBATE A TODA FORMA DE PENSAR E TODO COMPORTAMENTO QUE ANTECEDE O ESTUPRO, ou seja, TUDO O QUE ESTÁ RELACIONADO COM A CULTURA DO ESTUPRO. “Piadas” machistas, comentários que inferiorizam a mulher, formas de agir que mantém a mulher submissa ao homem, relações de poder que privilegiam os homens em detrimento da mulher, intensa exposição do corpo feminino nas mídias, cantadas na rua e no ônibus, entre outros exemplos. Tudo isso deve ser questionado em todos os espaços: nas escolas, nas rodas de amigos e amigas, nos locais de trabalho, e demais ambientes de socialização.
O trabalho de questionar e combater a Cultura do Estupro, de lutar contra toda ideia e forma de comportamento que vê a mulher como um ser inferior, como objeto, deve ser feito por todas as mulheres e todos os homens. Se a Cultura do Estupro continuar sendo tolerada em nossa sociedade, ela continuará se manifestando no seu grau mais violento: a própria prática do estupro e do feminicídio (assassinato de mulheres).
O crime bárbaro cometido contra esta jovem já estava, há tempos, anunciado, em todas estas formas de manifestação cotidiana da Cultura do Estupro. Não adianta nos indignarmos apenas quando nossas jovens (ou mulheres adultas) são estupradas e assassinadas. É necessário nos indignarmos e nos posicionarmos diariamente contra qualquer forma, por mais suave que seja, da Cultura do Estupro. É importante que tenhamos empatia não apenas por nossas mães, irmãs, filhas, namoradas, mas por todas as mulheres, até mesmo aquelas que não conhecemos e que foram, são e podem ser vítimas da Cultura do Estupro.
Por isso, esta nota tem o objetivo de conscientizar os profissionais do Direito e a sociedade em geral, da imprescindível tarefa de destruir toda e qualquer forma de opressão e dominação da mulher.
Obs.: após tomar ciência deste crime bárbaro, o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de Catanduva, decidiu aguardar alguns dias para a divulgação desta nota, a fim de obter mais detalhes sobre o caso e, principalmente, por respeito ao momento de dor da família da adolescente. Por fim, desejamos condolências e serenidade aos familiares da vítima na superação desta perda.

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