Conto - Densidade 33 - Graziela Delalibera
Atrasada, naquele dia ela saiu de casa apressada. O carro estava com o combustível na reserva, e ainda teria de parar em algum posto durante o trajeto ao trabalho. A pressa, no entanto, não era tanta, a ponto de não observar um velho colchão de molas jogado na calçada enquanto tirava o veículo da garagem.
Ainda não eram 9 horas, e o sol já despejava raios impiedosos sobre aquilo que parecia ter décadas de uso. Ela esqueceu do tempo, e estacionou o carro na rua. Intrigada, quis olhar aquele trambolho bem de perto.
O calor já fazia o colchão exalar um odor peculiar, que a levou a recuar num primeiro momento. Tapou o nariz e deu alguns passos adiante. Conseguiu enxergar uma etiqueta puída grudada ao colchão através de um buraco na capa colorida que o vestia. Dos seus dizeres, conseguiu ler apenas “D33”.
Bateu com o dedão em uma pedra, e se deu conta de que passava demais da sua hora. No caminho para o trabalho e, depois, durante a jornada, várias vezes a imagem do colchão lhe veio à mente. Ao mesmo tempo, se perguntava como aquilo tinha parado ali, como mágica, tão na surdina.
O tempo virou, e, à noite, o colchão já não parecia o mesmo, tamanha a quantidade de chuva que caíra. Quando as luzes dos faróis apontaram em direção a ele, o que lembrava era um tostex com queijo saindo pelas laterais.
“Amanhã cedo, sem falta, passo na casa do carroceiro e peço pra ele vir tirar essa tralha daí”, prometeu a si mesma.
“Amanhã cedo, sem falta, passo na casa do carroceiro e peço pra ele vir tirar essa tralha daí”, prometeu a si mesma.
Da janela da sala, naquela noite, algumas vezes espreitou o colchão encharcado iluminado pela luz do poste. De manhã, acordou decidida a acionar o carroceiro. O tempo estava aberto, um ponto a favor da limpeza da área. Ela dava ré no carro e teve outra surpresa: uma ratazana e sua ninhada haviam se instalado no colchão. Então, a cena do dia anterior se repetiu. Primeiro, estacionou o velho Fusca na rua. Caminhou devagar - em alguns momentos pensou em recuar. Mais perto, percebeu que o odor agora era diferente. Cara a cara com a ratazana, o animal ficou estático, acuado, apenas seu rabo enorme se movimentava de um lado para o outro.
Ela chegou a sentir um pouco de náusea, mas não se afastou um milímetro. Foi interrompida em seu intuito apenas quando lembrou que, mais um dia de sua vida, estava atrasada.
Acelerou o carro e, quando passou em frente à casa do carroceiro, pensou na promessa do dia anterior, no entanto, decidiu ignorá-la.
Acelerou o carro e, quando passou em frente à casa do carroceiro, pensou na promessa do dia anterior, no entanto, decidiu ignorá-la.
Era sexta-feira, dia do boteco com os amigos. As luzes do Fusca apontaram para o portão da casa, e calculou ser mais de meia-noite. Alguma coisa tinha saído do lugar, percebeu. Fechou a porta do carro e correu até a calçada. Nem sinal do colchão fedorento ou da ratazana e seus filhotes.
Entrou em casa meio tonta. Pensou que deveria ter parado na quinta cerveja. Dormiu algum tempo um sono profundo. Acordou assustada. Olhou no relógio e viu que faltavam muitas horas ainda para o dia amanhecer. A passos lentos e sonolenta, caminhou até a janela da sala. Coçou os olhos, viu um gato atravessar a rua, e depois pular o muro do vizinho. Fechou a cortina, decidida a voltar a dormir. “O que será que eu estava procurando lá fora?”, se perguntou, ao repousar o corpo sobre o colchão que estreara aquela noite, ainda cheirando a loja. Densidade 33.
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