Crônica - A praça Cívica - Manoel Messias Pereira

A praça Cívica


Estes dias penso que comi demais, que engordei alguns quilos, penso que estou ficando fora de forma física. Já não me sinto mais como um atleta. Estou ficando velho, com certeza ou melhor já sou idoso.

Eu penso que o tempo passa, e a gente continua muitas vezes olhando os mesmos pontos que antigamente. Observando as ruas, os monumentos, a arquitetura dos edifícios, as preservações, a memória. E lembrando que há uma mudança em tudo até nas cores dos edifícios.

Outro fato importante e principalmente em São José do Rio preto-SP., é que muitos destes prédios foram para o chão, lembro assim do Hotel Camareiro, lembro da Loja Rianni, em que havia pássaros e animais empalhados, recordo do prédio do Banco Comind que achava bonito a sua arquitetura, embora tenho o analfabetismo arquitetônico no meu aprendizado escolar em relação a arte, aos movimentos, as tendências desta ou daquela época. Ou seja sou fruto desta produção escolar fragmentada desgraçadamente esfarinhada.

Estes dias passava na praça Cívica, onde há um pequeno terminal de ônibus urbanos e notei que o local está todo pichado e recordo quando o prefeito era o Edinho Araujo, isto não ficava assim. Podiam pichar mas no outro dia pela manhã estava uma equipe de limpeza da prefeitura, passando e pintando. Havia de fato essa preocupação. Agora não parece que o atual prefeito é meio porco. mas deixa pra lá. Coitado dos porcos são apenas um animal em que nós comemos a carne assada no Natal.

E falando em terminal urbano. Sabemos que essa praça que já foi tão bonita, arquitetonicamente, significativamente. Pois se é cívica provavelmente pensavam que as pessoas iriam organizar-se pensar-se, gritar-se civicamente ali. Mas teve um prefeito chamado Roberto de Souza, que contratou um artista que já está morto chamado Miro Enthal que construiu uma monstruosidade chamado de monumento as raízes da terra. E não teve ninguém que olhasse para aquilo e que não tivesse a ideia de jogar tudo no chão. Era horrível com obra de arte. Poderia ser um obra de horror em plena praça. O resultado foi virar tudo um grande entulho. E a miséria cultural é que o monumento foi feito bem na frente da estátua do jornalista Leonardo Gomes, como uma pirraça. Ou seja um enfrentamento. diante do jornalista, que agora em estátua não escreve, não fala. Ou seja é um silêncio que desafiava o silêncio da própria estátua. Mas a praça cívica vai virar pó. Vão retirar as árvores, E vão construir o terminal urbano. Conforme a construção e as relações humanas neste local será um espaço de bastante perigo e falta de segurança, creio eu. E a ideia cívica de manifestar numa praça ficou só em quem solitariamente pensou nisto. Essa é uma praça pensada pra solitários.

Pra não perder a conversa sobre tal Miro Enthal, ou melhor nem sei se era assim mesmo que escreve o nome deste artista, mas o importante que ele também fez um busto, de Tancredo Neves, que havia morrido em 1985. E o importante é que a arte dele não apresentava nada com a figura de Tancredo Neves. Era um busto robusto e a obra dele mais parecia com o papa João XXIII, aquele do Rerun Novarum, o importante é que os vereadores que pagaram uma fortuna por aquela obra mal feita esconderam, e até hoje vou na câmara mas não vejo aquela aberração artística. Credo.

Mas todos os dias fico caminhando pelas ruas, recordando dos fatos e muitas vezes sorrindo sozinho, acho a vida um doce dadaísmo, que é uma ideia de subversão.  Como diria o escritor francês André Gíde,  Dada procura abolir, destruir todos os valores tradicionais, todos os sistemas, todas as constituições, procurar fazer uma tábula rasa. Mas por  enquanto tenho apenas as palavras pra destruir as ideias concretas do absurdo de que estamos vivendo numa plena harmonia sem as contradições do sistema capitalistas como alguns idiotas, feito de professores, jornalistas e desgraçados outros que fala em televisão que escreve em jornais. O importante é quebrar essas ideias sagradas. essa mentiras bobas em termos de organização social.

Mas hoje penso que estou mesmo fora de forma física, estou perdendo o meu reflexo de atleta, comi demais, engordei alguns quilo, já virei idoso. Tenho a obrigação de descansar. mas ainda tenho língua pra conversar e caneta pra escrever. E assim digitar tudo que penso graças a liberdade, essa pequena gota de esperança perdida no vazio contemporâneo da existência.


Manoel Messias Pereira

cronista
São José do Rio Preto -SP. Brasil











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