Cronica - Dona Neuza a minha professora de História - Manoel Messias Pereira
Em 1969 eu pequeno garoto, que havia entrado no primeiro ginasial, após cumprir o ritual educacional, completar a quarta série, entrar no curso de admissão, prestar o vestibulinho e ser aprovado.Entrei no Ginásio Estadual Dr. Cenobelino de Barros Serra.
Eu era um garoto que tinha um sonho, crescer e ser um profissional da educação. Um professor que pudesse fazer da vida um roteiro de paz, de construção, de mediação, que pudesse ensinar e ter no ensino a minha plena realização.
Foi o momento muito importante quando ao invés de ter um só professora vi entrar na sala diversos mestres conforme a disciplina e foi neste momento que descobri que seria um professor de história.
Na sala entrou um professora de vestido branco, sapato branco, com um belo sorriso, se apresentou e disse que iria trabalhar com todos nós alunos, lecionando história. Seu nome era Neuza Ramos de Oliveira. Era fina, com uma educação esmerilhada numa postura bonita e sempre simpática.
Observei que a matéria de história, era sempre polêmica e que sempre dava pra discutir, num ou n'outro ponto de vista. Das aulas de dona Neuza lembro-me do trabalho de pesquisa que ela passou e que todos os alunos deveriam elaborar uma resposta a um conjunto de indagações. e me recordo que o tema girava em torno da figura dos jesuítas no Brasil.
Eu que tinha ganho um livro de um senhor, chamado seu Arruda, que era um sapateiro de profissão, vi que tinha oportunidade de ler e já estabelecer uma resposta bem qualificada. O livro era "Curso de História do Brasil para o curso superior, escrito por João Ribeiro" editora Francisco Alves. E assim depois de ler, compreender escrevi. Mas parece que dona Neuza, não gostou muito e disse, que não poderíamos copiar os autores. Mas tentei argumentar que já sabia que o autor havia escrito e era isto mesmo. Confesso que não tirei a nota que desejava fiquei com 6,5 quando precisava tirar 7 para fechar o bimestre com certa tranquilidade.
Não demorou muito tempo e dona Neuza foi embora e em seu lugar veio o professor Lourenço. O que reparei que ambos professores de história eram solteiros. acreditei que eles casaram - os com a cultura histórica e por isto talvez ficaram solteiros.
Mas o tempo passou e voltei a encontra Dona Neuza, quando fui fazer um curso técnico e ela fazia o Curso de Direito. Cumprimentamos e recordamos o período em que ela foi a minha professora e eu seu aluno. Ela chegou a informar-me que ela havia assumido o cargo de diretora e por isto não ficou na escola em 1969.
Depois disto reencontrei depois como professor e ela minha coordenadora. Viramos colegas de profissão, e todas as tardes conversávamos, pois trabalhamos na Escola Estadual Carlos Castilho em Guapiaçu-SP, e ficávamos da tarde pra noite. Portanto fazíamos um lanche e esperávamos o noturno.
Assim era a convivência que passei a ter com aquela professora. E numa oportunidade pedi a ela alguns conselhos jurídicos, o que ela foi muito atenciosa. Com ela aprendi muitas coisas por exemplo, que em todo o processo educacional é necessário manter-se um ambiente seguro para que a aprendizagem possa ocorrer, diante do ensino, que a educação também está sujeita as múltiplas contradições historicamente, que por exemplo Platão na antiga Grécia dizia que educar poderia até mesmo pelo castigo, e que os romanos assimilaram as escolas dos gregos, que na Idade Média a infância terminava aos sete anos e não havia uma preocupação maior com essas fases, e que na época havia um alto índice de mortalidade infantil. e que até pouco tempo as pessoas tratavam as crianças como adultos em miniaturas.
E sempre acrescentava o respeito com a criança exige conhecer o seu desenvolvimento psicológico, ater-se ao processo de ensino, mas respeitando o seu entendimento e a sua imaturidade, valorizando o tempo de construção social dos indivíduos. Utilizando o lúdico se possível, brinquedos e brincadeiras.
Com ela aprendi a entender as mudanças tecnológicas, as mudanças sociais e educacionais e a cultivar diversas formas de educar, estabelecendo demandas para esse milênio.
Enfim fui feliz como aluno, como colega de profissão. Mas no dia 4 de março, ao pegar o jornal o diário da Região, vi uma nota de que no dia 3 de março de 2015, falecia Neuza Ramos de Oliveira enterrada no mesmo dia ás 16h no Cemitério da ressurreição em São José do Rio Preto-SP.
Pra mim não houve uma morte mas uma eternização daquela que foi uma mestra e ensinou a olharmos de forma plural para infância, para a adolescência universal, construindo sempre uma nova realidade. Se pudesse ter dito uma palavra antes dela morrer. Deveria ter deixado essa mensagem, "Obrigado por ter sido minha professora, minha colega e uma pessoa que estabeleceu uma paz e uma mensagem de amor pleno eternamente".
Manoel Messias Pereira
cronista
São José do Rio Preto-SP. Brasil.
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