“Iracema” apresenta a origem mítica do povo brasileiro
Publicada em 1865, obra de José de Alencar institui o indianismo como mito fundador nacional
Por Luiz Prado - Editorias: Cultura
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A
constituição do indianismo como mito fundador nacional, embora de
raízes europeias. A representação da mulher. O nível da construção
linguística.
Se você é vestibulando, esses são os principais assuntos de estudo em Iracema,
leitura obrigatória para o vestibular Fuvest 2018, na opinião do
professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas (FFLCH) da USP Marcos Flamínio Peres.
Iracema
foi escrito em 1865 por José de Alencar (1829-1877) e conta a história
de amor entre a indígena que dá nome à obra e o aventureiro português
Martim. Iracema pertence ao povo tabajara e é a filha virgem do pajé.
Martim é aliado dos pitiguaras, inimigos dos tabajaras, e está perdido
em território inimigo. O encontro entre os dois dá início a um romance
que serve de lenda para contar o surgimento do Estado do Ceará.
A obra é uma das mais famosas do Romantismo
brasileiro e se insere numa tendência conhecida como indianismo. “O
indianismo representa ao mesmo tempo um momento tanto de
particularização quanto de universalização da literatura brasileira”,
afirma o professor.
“Particularização”, explica Peres, “na
medida em que o uso de vocábulos tupis e nomes como Peri, Ubirajara e
Iracema, assim como a descrição de costumes das tribos indígenas que
povoavam o território antes da chegada dos portugueses, acentuam a ideia
de uma determinada nação.”
Já a universalização, argumenta o
professor, faz parte de um movimento mais amplo de resgate das tradições
locais, surgido na Alemanha da segunda metade do século 18. Lá, autores
produziram mitos através da revalorização de igrejas góticas e de
cavaleiros andantes, da Idade Média e mesmo de culturas consideradas
“bárbaras”, como a escandinava ou escocesa.
“Tal movimento de valorização das tradições
locais deve ser compreendido à luz da hegemonia histórica da língua e
literatura francesas, que reivindicavam para si um caráter supostamente
universal, ancorado nas mitologias greco-latinas”, diz Peres.
Assim, analisa o professor, a valorização
da figura do índio na literatura brasileira se insere nesse mesmo
movimento de recusa do universal e de valorização do que é local, cerne
do Romantismo.
Enquanto os alemães mitificaram a Floresta Negra, igrejas góticas e cavaleiros, Alencar dedicou seus romances indianistas, como Iracema,
à natureza tropical e ao passado pré-colonial do Brasil. A escolha de
tais temas, segundo Peres, fazia parte da lógica da recuperação da
tradição local do Romantismo que, na literatura, se propunha a ser uma
espécie de “invenção da tradição” – termo emprestado do historiador
britânico Eric Hobsbawn (1917-2012).
“Não é casual, portanto, que Alencar tenha chamado Iracema
de ‘lenda’ – e não romance”, afirma o professor. “A ênfase na dimensão
mítica se apresenta desde o início”, continua, “seja através da origem
indefinida (‘Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
horizonte, nasceu Iracema’), seja através de sua aproximação com os
elementos naturais (‘Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os
cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de
palmeira’).”
Para Peres, a personagem-título é uma
“donzela-guerreira” que, ao mesmo tempo, expressa ternura e dedicação
extrema ao amado, características encontradas na literatura provençal e
nas cantigas de amigo portuguesas. Essa dupla dimensão é o que instala o
conflito entre o dever para com a tribo e o amor a Martim, o “guerreiro
cristão”.
Ao lado da crise entre amor e dever, a
saudade da terra natal é outro elemento-chave da obra. “A saudade das
respectivas pátrias”, explica o professor, “a Europa distante e a tribo
abandonada, acomete a ambos, reafirmando uma vez mais a ideia de nação
como elemento constitutivo da estética romântica”. Nessa perspectiva,
analisa, Moacir, o filho de Iracema e Martim, assume o estatuto
emblemático do “primeiro filho que o sangue da raça branca gerou nesta
terra da liberdade” e dá origem, no plano mítico, a um novo povo e a uma
nova nação.
Peres aponta ainda a musicalidade e o ritmo
da escrita de Iracema como destaques da obra. “É inegável ouvirmos ecos
camonianos na linguagem de Iracema”, afirma. As ressonâncias
do poeta português Luís de Camões (1524-1579/80) estariam em passagens
como “Martim libou as gotas do verde licor” ou “a juriti, que divaga
pela floresta”.
Ao lado da influência clássica, o professor
vê concorrendo para essa musicalidade e ritmo a sonoridade então
incomum dos vocábulos indígenas, como carioba, juriti ou pocema,
e o uso de aliterações, como a recorrência do fonema “t” na passagem
“Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras”. Também se destaca
a insistência sobre a comparação, como no trecho “ficou tímida e
inquieta, como a ave que pressente a borrasca no horizonte”. “Difícil
encontrar uma página de Iracema em que não haja comparações”, frisa Peres.
O professor Marcos Flamínio Peres ministra palestra sobre Iracema na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, no dia 1º de setembro, às 19 horas.
As inscrições para o vestibular Fuvest 2018 começam em 21 de agosto.
O livro Iracema, de José de Alencar, está disponível gratuitamente, na íntegra, neste link:
http://www.dominiopublico.gov.
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